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1 de janeiro de 2018

LIVRO - INSUSTENTÁVEL

Fazia um tempão que Jair não passava um final de semana sozinho, sem a esposa e o casal de filhos. Trabalhador, pai dedicado e marido exemplar, Jair não poderia passar o final de semana com a esposa e os filhos, pois daria plantão no sábado e domingo em seu trabalho.
    Aproveitando, sua esposa e filhos resolveram ir para uma cidade do interior, distante duzentos quilômetros, visitar os pais e parentes. Jair trabalhava como enfermeiro chefe de um grande hospital e sempre foi muito responsável.
    - Tchau querida!  Tchau crianças!  Boa viagem!
Jair se despediu da família na sexta feira à noite. Depois foi logo dormir, pois tinha que chegar ao hospital no dia seguinte às seis horas da manhã para a troca da equipe.
    Logo que chegou ao hospital pela manhã o clima estava pesado. Com o pronto socorro superlotado as equipes médicas com auxílio dos enfermeiros enfrentavam vários casos urgentes, comuns no dia a dia e principalmente nas madrugadas de sexta para sábado.
    Maria Helena era a auxiliar de Jair. Eles se davam muito bem na distribuição das tarefas, no auxílio aos médicos e acompanhamento dos pacientes. Jair dizia que Maria Helena era seu braço direito, fundamental para o sucesso, por assim dizer, no trabalho que eles executavam.
    Todos sabiam que Maria Helena tinha uma queda por Jair, mas Jair era um homem sério, bem casado, pai de dois filhos e Maria Helena respeitava essa condição, mas não deixava de confidenciar a alguns colegas que era perdidamente apaixonada por Jair.
    Maria Helena era uma mulher muito bonita, respeitadora, constantemente cantada por muitos homens, mas seu verdadeiro amor sempre foi Jair, que infelizmente para ela, muito bem casado.
    O sábado passou e no final do expediente, depois de doze horas ininterruptas, a equipe de Jair fez um balanço do dia: Foram treze salvamentos e dois óbitos.
    - No dia a dia nos entristecemos com as mortes, mas vibramos quando conseguimos salvar uma vida. Salvar uma vida vale muito mais que se entristecer por uma morte, conceituada, evidentemente, Jair. Maria Helena foi ao vestiário do hospital para se trocar. Quando voltou encarou Jair como se fosse um anjo loiro de olhos azuis. Jair balançou e Maria Helena percebeu. Ela sempre foi uma mulher muito bonita e se surpreendeu quando Jair lhe fez uma proposta:
    - Se quiser podemos jantar juntos essa noite!
Maria Helena nem pensou para dizer sim. Não poderia perder aquela oportunidade de ficar alguns momentos com o grande amor de sua vida. Jair achou que não havia nada de mais em convidar Maria Helena para jantar, pois afinal, eram colegas de trabalho e na cabeça dele não havia segundas intenções, aparentemente.
    Os dois foram a um restaurante bem perto do hospital e durante o jantar resolveram não falar sobre trabalho, sobre vida ou morte e Maria Helena se encantou quando Jair disse que ela era muito bonita.
    - Uma coisa era observar Maria Helena no estresse do trabalho e outra era estar diante de seus olhos, sem o barulho das sirenes e dos autofalantes das emergências.
    O jantar transcorreu de maneira muito agradável.
Maria Helena percebeu que Jair estava vidrado e usou de sedução, palavras pausadas com sua voz rouca. Uma taça de vinho foi suficiente para relaxar, ficarem mais a vontade.
    Depois da terceira taça, estavam dançando de rosto colado ao som de músicas românticas cantadas com acompanhamento de um piano. De corpos entrelaçados e com a doçura de um perfume sedutor, não demorou muito para se beijarem e se abraçarem com garras de paixão. Ao final da noite estavam abraçados numa cama de motel.
    O domingo passou numa rotina normal de trabalho.  Jair e Maria Helena trabalharam normalmente nada foi comentado sobre a noite de amor. Na cabeça de Jair tinha sido uma aventura, um momento de prazer entre duas pessoas que se gostavam, mas sem compromisso e tudo teria terminado na manhã seguinte, quando os dois regressaram ao trabalho. Porém, na cabeça de Maria Helena, aquela aventura tornou-se um sonho real, alimentou uma paixão avassaladora, pois os dois se abraçaram, se beijaram e fizeram amor com intensidade de quem se ama. Na noite de domingo Jair saiu assim que encerrou o plantão. 
    Queria voltar logo para casa para reencontrar a esposa e filhos que voltavam de viagem.
    Não se despediu de ninguém, saiu muito depressa e quando Maria Helena percebeu Jair tinha ido embora. Jair chegou em casa e passou o resto da noite com a mulher e os filhos. Estava feliz, pois no dia seguinte seria sua folga no hospital e combinou de passear com a família. Tarde da noite, após as crianças irem dormir, Jair ficou um bom tempo conversando com sua esposa antes de dormir. No meio da noite, acordou com cede e foi beber água. Quando voltou viu seu celular de luz acesa e foi verificar. Jair se assustou. Haviam vinte e duas chamadas perdidas em seu celular e as chamadas foram feitas por Maria Helena.
    Jair apagou as ligações e as mensagens e percebeu a enrascada que se meteu depois da noite com Maria Helena. Quando retornou ao trabalho, chamou Maria Helena para uma conversa e perguntou sobre as ligações.  Maria Helena disse que estava sentindo sua falta e que a noite que tiveram juntos teve um significado muito importante para ela: Estava apaixonada. Jair tentou convencê-la de que o que tiveram foi uma aventura e que tudo havia terminado na manhã seguinte, era um homem casado e não poderia ter um romance com ela. Ponderou ainda que o que tiveram foi uma caso passageiro, uma atração meteórica que culminou numa noite de amor. Maria Helena chorou muito e depois de uma longa conversa prometeu esquecer, prometeu que Jair ficaria guardado em seu coração, mas que respeitaria sua condição de homem casado. Alguns dias se passaram e Jair pensou que tudo estava resolvido.
    Os telefonemas se cessaram e no ambiente de trabalho ficou tudo normal. Maria Helena parecia que tinha se convencido de que o acontecido tinha sido uma aventura que começou numa noite, como bons amigos, numa mesa à luz de velas e terminou na manhã seguinte, numa cama de motel. Perto de completar mais um aniversário Jair estava muito feliz. Sua esposa prometeu que faria um jantar com seu prato preferido e alguns familiares compareceriam em sua casa. Por outro lado, Maria Helena voltou a insistir: Queria uma nova noite de amor como a que tiveram, mas Jair demoveu-a da ideia.
    - Você precisa entender de uma vez por todas que eu sou um homem casado. Amo a minha esposa e os meus filhos e o que aconteceu conosco foi um deslize de minha parte. Nunca dei a você qualquer esperança, tampouco lhe prometi alguma coisa. Vamos esquecer tudo, pois afinal ainda somos amigos, trabalhamos juntos e não podemos deixar nada transparecer em nosso ambiente de trabalho. Contemporizou Jair. O dia do aniversário de Jair chegou e a equipe de trabalho preparou um bolo e cantaram parabéns a você! Jair agradeceu, recebeu os comprimentos de todos e ao final do expediente se despediu emocionando:
    - Minha família está me esperando! Obrigado a todos!
Jair voltou para casa ansioso pela comemoração de seu aniversário com seus familiares.
    Tudo estava perfeito em seu dia e ele estava muito feliz. Antes de servirem o jantar, uma surpresa: Uma visita até certo ponto inesperada.
    Enquanto Jair brindava com sua família e amigos, tocou a campainha e sua esposa foi atender:
          - Maria Helena! Querido! Olha quem chegou! 
Jair ficou com cara de poucos amigos. Não tinha convidado Maria Helena para o jantar, porém, não poderia deixar transparecer qualquer atitude inconveniente e acabou por receber Maria Helena à mesa. Sua esposa achou normal, pois Maria Helena era sua conhecida e sabia que trabalhava com o marido. Um pouco alegre pelas bebidas que havia consumido Jair não sabia o que dizer:
    - Veja querido quem chegou! Sua colega de trabalho!
Para a esposa de Jair a situação, ou seja, a presença de Maria Helena em sua casa era normal, pois afinal, sua esposa sabia que ela era uma boa colega de trabalho de seu marido. Jair ficou constrangido e não sabia o que fazer diante daquela surpresa. Entretanto, procurou agir com a maior naturalidade possível, mas a situação começou a ficar preocupante, pois Maria Helena não lhe desviava os olhos e tudo aquilo poderia ser uma bomba relógio que explodiria a qualquer momento.
    E todos se sentaram à mesa para que fosse servido o jantar. Maria Helena, um tanto quanto deslocada não se intimidou e ficou conversando com Sofia de cinco anos, filha de Jair. Jair e sua esposa ficaram o tempo todo conversando com os convidados. O jantar foi bem sucedido, todos ficaram satisfeitos e o casal começou a se despedir dos convidados, um a um, até que ao final notaram que Maria Helena havia ido embora sem de despedir.
    De certo modo, Jair ficou aliviado, apesar da desconfiança de sua esposa quanto a Maria Helena. E enquanto se despedia do último convidado, ouviu-se um grito desesperador de Samanta, esposa de Jair:
    - Sofia! Sofia!
    Sofia não estava em casa, não estava no quarto, no quintal, em nenhuma dependência da casa. Jair não acreditou e percorreu a casa inteira feito um louco à procura da filha. Ligaram para todos os parentes e amigos e nada de saberem onde estava Sofia. Por fim, houve-se uma interpelação de Samanta:
    - Ela ficou o tempo todo com Maria Helena. Só pode ter sido ela. Jair, desesperado, ligava ininterruptamente para Maria Helena, mas só entrava na caixa postal. Enquanto isso Samanta ligou para a polícia e logo se fez um alerta com o retrato identificado de Maria Helena e da criança. Enquanto isso Jair era interrogado por Samanta e acabou contando para a esposa o envolvimento extraconjugal que havia tido com Maria Helena e que talvez, pela indiferença dele, o sequestro de Sofia poderia ser uma represália.
    Samanta não questionou Jair em nenhum momento sobre seu envolvimento com Maria Helena, pois, de certo, o sequestro da filha deixou-a fora de órbita, o que não fez com que ela digerisse a revelação do marido. A noite inteira se passou e a polícia não tinha nenhuma pista, além de que o envolvimento de Maria Helena no sequestro de Sofia ainda era uma suspeita que precisava ser comprovada. A situação estava insustentável.
    Tentando entender a realidade dos fatos, Jair foi confessar ao delegado do caso o motivo de sua suspeita.  Além do amor louco que Maria Helena tinha por Jair, o maior sonho era que tivessem uma filha, porém, Maria Helena sabia que nunca poderia ser mãe e toda sua loucura poderia ter feito com que tivesse sequestrado Sofia. 
      O dia amanheceu e a polícia começou a investigar as denúncias que recebia, até que um telefonema delatava que uma mulher e uma criança com as características de Maria Helena e Sofia foram vistas no parque central da cidade. Foi num feriado, um dia bonito de sol e o parque estava cheio.
    Pessoas andando de bicicleta, fazendo exercícios, praticando esportes ou tomando sol na beira do lago, enfeitavam o lindo dia.
    Ao fundo do parque existiam algumas cabanas onde as famílias utilizavam para fazer piquenique e quando a polícia chegou, acompanhada de Samanta e Jair, encontraram Sofia, sozinha, brincando com outras meninas que havia conhecido no parque:
    - A tia Helena foi comprar comida! Ela disse que você iria chegar mamãe! Disse a criança inocente. Enquanto seus pais choravam e abraçavam Sofia, a polícia seguia alguns rastros que poderiam leva-los até Maria Helena. Sofia estava bem, disse aos pais que havia dormido no carro e que a tia Helena havia prometido trazê-la no parque para comerem algodão doce. Enquanto isso Maria Helena percebia que estava cercada e fugiu dirigindo seu carro em alta velocidade.
    Sofia voltou com Samanta para casa sã e salva, enquanto Jair foi com a polícia em perseguição a Maria Helena. A polícia estava no encalço e dificilmente Maria Helena iria escapar. Jair tentava a todo o momento manter contato, mas Maria Helena estava perturbada.
       - Não atirem! Não atirem! Ela não fez por mal!
    Jair ficou desesperado. Sabia que Maria Helena estava muito perturbada e aquele estado de loucura poderia ser revertido. Quando finalmente a polícia fechou o carro, Maria Helena fez uma manobra suicida e o carro capotou por várias vezes. Jair saiu em disparada para socorrer Maria Helena, que ficou presa entre os ferros retorcidos do carro destruído.
    - Cuidado! O carro pode explodir! Alertou o policial.
E entre os escombros e um coração partido, Maria Helena, num olhar profundo, lamentou dizendo:
    - Eu não maltratei a nossa filha!

Maria Helena se recuperou depois de quase trinta dias internada. Jair não deixou de cuidá-la um só momento e quando teve alta foi levada para um hospital psiquiátrico onde pagou sua pena. Quanto a Jair, foi perdoado por Samanta e se transferiu de hospital.
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

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