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1 de janeiro de 2018

LIVRO - JESUS CHOROU

JESUS CHOROU

      Eu só conseguia enxergar as luzes da ambulância que e os olhos arregalados da paramédica monitorando meu coração. O barulho externo era evidente, a ambulância estava em alta velocidade, mas eu não ouvia nada, um silêncio, uma paz estava dentro de mim e em nenhum momento me vi desesperado. Será que Deus nos prepara para o momento da “virada”, quando passamos desta vida para outra? Pensei, calei.
     A paramédica olhava constantemente para os meus olhos e para os sinais dos aparelhos que estavam ligados por um monte de fios no meu peito. Quando chegamos ao pronto socorro existia uma equipe de médicos e enfermeiros me aguardando na recepção. Quanta honra! Pensei, lembrando que na minha vida eu nunca tinha perdido o senso de humor. Uma gritaria tomava conta dos profissionais que me atendiam. O corredor que ligava a entrada do pronto socorro até a sala de emergência era estreito e gelado e uma gritaria e correria dos profissionais era tão intensa que parecia que a dor era mais intensa neles do que em mim.
     - Vamos fazer a reversão elétrica! Disse um dos médicos que me atendia.
     - Anestesista, anestesista! Suplicava o médico.
     Em pensamento, pedia a todos que tivessem calma e, em silêncio, comecei a rezar. Um filme da minha infância passava constantemente na minha mente e eu me via segurando na mão da minha querida mãe. De uma hora para outra me senti como se estivesse levitando. Eles percebiam que eu acompanhava desde o início todos os “trabalhos”. O efeito da anestesia foi muito rápido e me senti no intervalo entre deitar-se numa cama e pegar no sono. Sentia frio e calor ao mesmo tempo e nos últimos segundos da minha lucidez tive a nítida impressão que do quadro que ficava no alto da parede da sala de emergência, Jesus olhava para mim com um semblante de quem estivesse pedindo calma, muita calma e paciência.
     Das ultimas vezes em que havia sido anestesiado, me via num sonho como se tivesse regredindo ao passado, à minha infância e de certo modo fiquei ansioso, pois sabia que iria rever os meus entes queridos. Se morrer significasse aquilo que eu estava sentindo, então eu estava tranquilo, pois não sentia dor alguma e eu estava numa paz de espírito tão grande que não via a hora de me encontrar com Jesus Cristo:
     - Como será que ele vai me receber?
     Logo na chegada vou dar-lhe um abraço bem forte e não vou esperar muito para perguntar sobre meu pai, minha mãe e minha filha, principalmente. Claro que vou querer ver todo mundo e também a minha avó que muitas vezes me livrou das chineladas da minha mãe. Eu estava num corredor estreito, iluminado por luzes amarelas e pelos raios do sol. Não tinha ninguém ao meu lado e fui descendo como se estivesse escorregando num tobogã. A descida terminou e cheguei num imenso jardim. O dia estava muito bonito, como nas manhãs de primavera e os bem-te-vis cantavam forte e davam voos rasantes entre uma árvore e outra. As árvores eram frutíferas, só que eu não conseguia distinguir quais frutas eram. Por vezes colocava a mão no meu peito que ardia como se eu estivesse pegando fogo. Era como se estivesse com um ferro de passar roupas grudado no meu peito. Ouvia vozes, não sabia de onde vinham...
     - Desfribilador, desfribilador!
     Alguém estava desesperado.
     De uma hora para outra, percebi que uma força me conduzia para algum lugar, não sabia onde, mas que era muito agradável estar ali. Eu vi o sol. Eu vi um lago de águas azuis cristalinas e não me contive e rolei no mato que tinha gosto de framboesa.
     - Onde está todo mundo? Indaguei a mim mesmo.
     - Onde está Jesus Cristo? Por que está demorando pra vir me buscar?
     Eu estava ansioso demais para dar-lhe um abraço bem forte e pedir para Ele me levar onde eu pudesse encontrar as pessoas que eu amo e que tinha muita saudade. De repente me vi sentado num lugar que parecia uma capela. Pensei que iria participar de alguma missa ou que eu teria que me confessar com algum padre antes de abraçar Jesus Cristo:
     - Seu padre, seu padre! Olha eu aqui!
     Ele fingiu que não me viu, não estava de batina. Estavam todos de branco e parecia mais com um médico do que um padre.
Aquele lugar parecia mais um hospital do que uma igreja. Resolvi sair daquele lugar e voltar onde eu podia ver o sol e os pássaros:
     - Vou procurar alguém para conversar. Pensei!
Resolvi dar um mergulho no lago. As águas estavam calmas. Antes de mergulhar consegui ver meu rosto refletido nas águas:
     - ? Esse sou eu?
     Eu parecia ter ficado bem mais jovem!
     Olhei para o meio do lago e vi uma menina nadando. Era muito pequenina, achei que ia se afogar e nadei até alcançá-la.
     - Quem é você?
     Ela não respondeu, mas sorria muito e a sua fisionomia não era estranha, mas não conseguia me lembrar de onde eu a conhecia.
     - Ei menina! Menininha! Você sabe onde posso me encontrar com Jesus?
     Ela não me respondeu, mas parecia que estava me levando para algum lugar. Nós saímos do lago e ela segurou na minha mão e passamos a percorrer por dentro do jardim. Os pássaros também ajudavam a menina a me guiar. De longe avistei um casal de velhinhos, pensei que fosse Jesus conversando com a avó daquela menininha. Ao me aproximar, a menina, como se fosse num passe de mágica, sumiu e o casal de velhinhos ficaram de costas para mim.
     - Ei meu senhor! Minha senhora! Vocês viram para onde foi uma menininha, assim, assim, pequenina?
     - Logo ela volta! Respondeu o velhinho!
     - Por acaso o senhor sabe como eu faço para me encontrar com Jesus?
     - ELE está entre nós! Respondeu a velhinha simpática!
     - A senhora se parece muito... Por acaso... Não, não...
     - Você precisa voltar menino! Completou o velhinho!
     - Olhem! Lá está a menininha! Eu vou brincar com ela! Tchau!
A menina então me chamou pelo nome. Ela estava falando! Eu sabia que a conhecia de algum lugar! Mas de onde?
     - Quem é você? Qual o seu nome? E ela então respondeu:
     - Você não queria se encontrar com ELE, Olha ELE aí!
As nuvens no céu estavam se movimentando rapidamente, de vez em quando as nuvens cobriam o brilho do sol e os pássaros estavam numa alegria tão grande que me deu até vontade de voar.
     Uma paz, uma tranquilidade tomava conta de mim e ao longe avistei o casal de velhinhos me dando adeus! Sentei-me num banco, no meio do jardim e vários pássaros ficaram ao meu redor. A menina apareceu pulando amarelinho e não parava de sorrir. Uma voz calma chamou-me pelo nome e disse que eu precisava voltar de onde vim e que sentiria muita saudade de mim, mas que ainda não era o momento de eu ficar ali, pois tinha muita coisa a fazer no lugar de onde vim. A voz vinha de bem perto de mim e de repente senti aquela voz embargada, soluçando, fraca, como a de alguém que estivesse muito, muito emocionado e ao me virar do banco do jardim em direção ao lago eu vi Jesus e ELE estava chorando!
     Jesus chorou a me ver sem as feridas, sem a expressão de sofrimento e com o coração batendo normalmente, o que representava a vida! Todos nós somos anjos prediletos de Jesus e quando nos curamos de algum mal por Sua interseção, por suas mãos sagradas de médico dos médicos, ELE chora, pois voltamos a viver com vigor! Jesus fica contente, se emociona, chora de alegria e contentamento, assim como nós!


     - Enfermeira, enfermeira! A reversão elétrica foi um sucesso! Ele voltou! Chame o Doutor! Os batimentos cardíacos e a pressão arterial estão normais e a fribrilação foi revertida. Vamos removê-lo para a UTI para um melhor monitoramento. Ele deve ficar em observação por quarenta e oito horas!

ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

LIVRO - QUANDO A CHUVA PASSAR

Heraldo chegou em casa o sol havia nascido e seus raios, através das frestas da janela, invadiam o quarto bem arrumado e ainda podia sentir o perfume de Maria Luiza. Ela não estava em casa. Como todas as manhãs, acordava bem cedo, deixava a filha na creche e corria atrasada para o trabalho na repartição pública. Heraldo ficava pelo menos setenta e duas horas fora de casa, às vezes mais, quando as viagens eram mais longas, ou quando tinha que cobrir a falta de algum colega na Empresa de Turismo. Heraldo era motorista de ônibus, costumava fazer sempre a mesma viagem de uma capital à outra, sempre nas madrugadas, e estava bem acostumado com aquela rotina e também era bem quisto na empresa. O ônibus saía sempre à meia noite. Heraldo dirigia a madrugada inteira e chegava na cidade de destino pela manhã. Depois descansava até por volta do meio dia e dirigia novamente da cidade de destino até a cidade de origem, chegando à meia noite, pois na volta fazia escalas em cidades que ficavam no percurso. O percurso era sempre o mesmo e a empresa, precavida, dispunha de dois motoristas em todos os ônibus, para que pudessem revezar em caso de cansaço ou qualquer outro imprevisto. O trajeto sempre foi muito perigoso: Muita neblina, garoa e pistas irregulares, mas Heraldo sempre teve muito cuidado... Um excelente motorista. Ele trabalhava na mesma empresa fazia vinte anos e nunca havia tirado ferias como se devia e dizia que não conseguia ficar parado, sem trabalhar, tanto que nos dias em que ficava de folga, trabalhava com o taxi do irmão.
     Heraldo conhecia a maioria dos passageiros de suas viagens, assíduos, viajavam a negócios, por trabalho, estudos, pois existiam grandes empresas multinacionais e faculdades localizadas no percurso. Os passageiros ficavam tranquilos quando viam que era Heraldo quem estava ao volante do ônibus.
     Por outro lado, o relacionamento de Heraldo com Maria Luiza não andava bem fazia algum tempo. Ele vivia para trabalhar e ela, trabalhava para viver, pois a situação financeira do casal não era das melhores. Eles só se encontravam nos finais de semanas ou nos feriados em que por ventura Heraldo estivesse de folga. Apesar de todas as amarguras Heraldo amava muito Maria Luiza. No dia em que veio a separação definitiva, Heraldo tinha uma importante viagem onde levaria vários estudantes para fazer vestibular numa das universidades que ficava no percurso, no roteiro da viagem onde ele estava escalado como motorista. Apesar da situação conturbada que culminou na separação, Heraldo amava Maria Luiza e naquele dia todos perceberam em seu semblante uma terrível desilusão.
     A viagem iniciou-se pouco depois da meia noite e a previsão de chegada ao destino seria por volta das seis horas da manhã, horário suficiente para os estudantes se prepararem para a prova do vestibular que começaria por volta das nove horas.
     Entre os passageiros do ônibus estava Andressa. Andressa era muito conhecida de Heraldo e viajava sempre na primeira poltrona do lado direito e ficava basicamente ao lado do motorista. Heraldo e Andressa se conheciam viagens anteriores e ela sempre dizia que era muito tranquilo e agradável viajar com ele ao volante do ônibus.
     Naquele dia ele estava de poucas palavras face ao abalo por sua separação. Andressa entendeu e respeitou o sentimento do amigo motorista e permaneceu em silêncio durante a viagem.
Ao se aproximarem da serra, uma neblina intensa fez com que Heraldo reduzisse a velocidade e andasse com mais atenção, tanto que pediu auxilio para o motorista reserva na orientação do percurso. Precavido, achou melhor parar o ônibus num recuo seguro quando começou uma chuva muito intensa.
     - Pessoal! Vamos esperar a chuva passar! Vou estacionar o ônibus neste recuo seguro – Disse Heraldo aos passageiros.
     A chuva demorou a cessar e chegou no limite de tempo em que a viagem teria de prosseguir de qualquer maneira para que os alunos/passageiros não corressem o risco de chegarem atrasados no destino e perderem a prova do vestibular.
     - Pessoal! A Chuva ainda continua intensa, mas temos que prosseguir!
     A visibilidade não era das melhores, e com toda sua experiência Heraldo dirigia o ônibus com a maior cautela e cuidado. Olhou pelo retrovisor e viu que os passageiros estavam calmos e tranquilos, muitos estavam dormindo, inclusive Andressa a quem Heraldo constantemente olhava.
     - Quando a chuva passar ficaremos mais tranquilos!
A descida da serra era perigosíssima em dias normais, com visibilidade normal... Imagine com chuva e neblina! Heraldo por mais que tentasse tornar o ônibus dirigível, as curvas acentuadas na pista molhada e a baixa visibilidade fez com que o ônibus derrapasse várias vezes até capotar. Por sorte não caiu ribanceira abaixo. No momento do acidente Heraldo ainda percebeu que a maioria dos passageiros estavam dormindo. Ele ficou preso entre as ferragens do ônibus e até que o socorro chegasse não teve como mensurar o tamanho da tragédia, mas ouvia gritos, gemidos e pedidos de socorro. Chamou por André, o motorista reserva, mas ele não respondeu. Olhou para a poltrona onde Andressa estava sentada e só enxergou destroços.
     Chovia muito e isso dificultava o trabalho das equipes de resgate.
Da ultima vez em que teve consciência, Heraldo reclamava que não estava sentindo sua pernas e chamava pelo nome, os passageiros mais conhecidos, sem resposta alguma.
     - Venha por aqui!
     - Não consigo me mexer!
Alguém tentava prestar ajuda a Heraldo, que tentava a todo custo se desprender das ferragens.
- Estou sentindo muitas dores! Estou sentindo muitas dores!
Uma voz calma e tranquila, no meio daquela cena desesperadora, tentava guiar Heraldo para “um lugar seguro”, como a voz dizia:
     - Venha por aqui! Já existem vários que estão comigo! Estão seguros!
     - Mas quem é você? Você é do resgate?
     - Venha por aqui! Muitos já estão aqui comigo! Outros, infelizmente não foi possível!
     Assustado e sentindo muitas dores, Heraldo conseguiu se desvencilhar das ferragens e com muito esforço seguiu na direção em que ouvia uma voz chamá-lo sem cessar.
     - Entre Heraldo! Entre!
     Heraldo reconheceu quem o chamava e pedia para entrar: Era Andressa! Juntamente com algumas pessoas que estavam no ônibus que desgovernou e capotou.
     - Onde estão os outros?
     - Alguns foram resgatados e levados para os hospitais da região, outros, infelizmente não tiveram a mesma sorte que a nossa de conseguir entrar nesteônibus reserva”! Disse Andressa a Heraldo.
Heraldo estava com o semblante assustado. Nem Andressa nem as outras pessoas estavam com qualquer escoriação e ainda ficou mais assustado quando percebeu que as fortes dores que estava sentindo havia cessado:
     - Nós vamos embora quando a chuva passar!
Andressa repetia essa frase várias vezes, encostada na janela do “ônibus reserva” com a palma da mão direita estendida:
     - Nós vamos embora quando a chuva passar!
Quando finalmente Heraldo percebeu o que havia ocorrido e o que estava acontecendo, chorou... Chorou e chamou por Maria Luiza. Depois sorriu, abraçou Andressa e as demais pessoas que estavam dentro do “ônibus reserva”, olhando a chuva cessar e um raio de luz brilhar no céu azul entre nuvens!
     - A chuva passou! Já podemos ir! Até um dia, Maria Luiza! Um dia vou chegar até você! Enquanto isso não vou parar de fazer a minha prece:
     Como vou chegar até você?

Talvez voando, entre as nuvens, entre o céu é o amanhã. Quem sabe se eu rezar você possa aparecer e segurar na minha mão, como da última vez em que morri para te encontrar...
Passarão os dias e as noites e se eu não achar o caminho, a chuva vai me levar. A chuva é sempre forte, os raios e os travões não me amedrontam mais, mas, mesmo assim, vou esperar a chuva passar... Paciente, para eu poder voar novamente entre as nuvens, pois na certa vou te encontrar e vamos para bem longe, para algum lugar... Porque eu te amo e a chuva vai passar. Vai passar!
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO

LIVRO - ELE VIVE

Para viver precisamos de alimento. Para que nosso corpo viva 70, 80 anos – quando muito – alimentamo-nos, diariamente, várias vezes. E para a nossa alma viver, não 70 ou 80 anos, mas eternamente, nós a alimentamos? Eis um assunto a ser pensado. Há diversos alimentos da alma: a oração, a meditação, a boa leitura, o estudo, a boa conversa, etc. Porém, de todos, o melhor é, sem dúvida, a Comunhão. Quando nos alimentamos com leite, carne, ovos, legumes, estes alimentos transformam-se em proteínas, vitaminas, sais minerais, etc. E, assimilados, passam a fazer parte do corpo – de nosso carne ou nosso sangue. Nós lhes somos superiores e os absorvemos. Quando nos alimentamos da Hóstia consagrada, passa-se o contrário. Este alimento (espiritual) nos é superior e nos absorve. Daí a frase de Santo Agostinho: "Não Vos humanizais em mim; eu é que me divinizo em Vós". Na Hóstia consagrada, a presença de Cristo mantém-se enquanto duram as espécies (de pão); Jesus fica presente na Hóstia de pão, que conserva sua matéria própria, com suas características de cor, cheiro, sabor, etc. O que muda é a substância – deixando de ser pão, para tornar-se Cristo – Por isso, este milagre é chamado de transubstanciação. 
            Na Última Ceia, no pão consagrado, os apóstolos não viram a aparência de carne. Também, no vinho, nenhum deles percebeu aparência de sangue. No entanto, eles acreditaram. "O interior de um ovo transforma-se num pássaro vivo – e a casca permanece a mesma" (S. Tomás de Aquino).
            Jesus não instituiu só para os apóstolos este sacrifício (incruento), em que os convivas se alimentam da Vítima. "Fazei isto em minha memória" – disse Ele, pensando em nós. E "isto em Sua memória", é a missa – em que nós somos os participantes. Na mesa (o altar), no ofertório, o sacerdote, representando Cristo, oferece pão e vinho.
            Quando, na consagração, ele repete as mesmas palavras de Jesus, o pão e o vinho tornam-se o Corpo e o Sangue do Senhor. Na Comunhão, nós nos alimentamos de Deus. Essas são as três partes essenciais da missa – repetição do que se passou na última Ceia e no Calvário. No Calvário, Jesus ofereceu-se de maneira sangrenta – o Cordeiro foi imolado. Nos altares, como na Ceia, o mesmo Cordeiro é oferecido ao Pai e entrega-se aos homens. No Calvário, o sacrifício foi cruento. Na Ceia e na missa é incruento. Mas o sacrifício é o mesmo. Porque mesmo é o Sacerdote e mesma é a Vítima. E mesma é a doação. Mesmo é o amor. "A missa procede do Calvário, de onde lhe vem a energia espiritual e salvífica; e procede da Ceia, de onde vem do modo incruento e tranquilo de realizar o mesmo sacrifício"             Um é, pois, o Sacrifício – e perfeito. Por causa da Vítima e do Pontífice. E por causa da oblação – ato de Sua Vontade: "Porque Ele mesmo quis", como disse Isaías. E por ser Ele o Único que podia dispor de sua vida (Jo 10, 18). 
Por ter o valor da Ceia e da Cruz, a Missa atinge plenamente – e realmente – o que os antigos buscavam em seus sacrifícios. A Missa é o ato de culto em que, da maneira mais perfeita, se adora, louva e agradece a Deus, pedindo-lhe perdão e ajuda. É o próprio Cristo, o Filho de Deus, Sacerdote e Vítima, quem, por nós, adora, louva e agradece ao Pai; quem, por nós, ao Pai, suplica o perdão para os nossos pecados e o auxílio para a nossa miséria. Por isso, o sacrifício da missa (também chamado de Eucaristia, isto é, ação de graças) é o centro de toda a Liturgia Católica. É a oração mais perfeita, o ato mais sagrado que existe entre os homens. A missa não é simplesmente "uma assembléia de fiéis", em que todos se unem, dando as mãos. É muito mais do que isso. E a união deve ser muito mais profunda. Tendo o mesmo valor do sacrifício do Calvário, nela se encontra a mesma fonte de graças, de vida e santidade. Devemos participar. Comungando. Jesus – por nós – Sacerdote e Vítima, não nos pede, simplesmente, "a assiduidade nas cerimônias indolores. Ele nos pede a nossa dor e nos diz que nossa pobre dor habitualmente tecida somente de miséria, de medo, de tristezas e, à vezes, ate de revolta, sim, Ele nos diz que nossa dor pode e deve tornar-se fundida em Sua dor e assim poderemos, de algum modo, diuturnamente hiperbólico, completar no Corpo Místico o que faltou na Paixão". Ah se soubéssemos ser pequenas hóstias!
           

LIVRO - INSUSTENTÁVEL

Fazia um tempão que Jair não passava um final de semana sozinho, sem a esposa e o casal de filhos. Trabalhador, pai dedicado e marido exemplar, Jair não poderia passar o final de semana com a esposa e os filhos, pois daria plantão no sábado e domingo em seu trabalho.
    Aproveitando, sua esposa e filhos resolveram ir para uma cidade do interior, distante duzentos quilômetros, visitar os pais e parentes. Jair trabalhava como enfermeiro chefe de um grande hospital e sempre foi muito responsável.
    - Tchau querida!  Tchau crianças!  Boa viagem!
Jair se despediu da família na sexta feira à noite. Depois foi logo dormir, pois tinha que chegar ao hospital no dia seguinte às seis horas da manhã para a troca da equipe.
    Logo que chegou ao hospital pela manhã o clima estava pesado. Com o pronto socorro superlotado as equipes médicas com auxílio dos enfermeiros enfrentavam vários casos urgentes, comuns no dia a dia e principalmente nas madrugadas de sexta para sábado.
    Maria Helena era a auxiliar de Jair. Eles se davam muito bem na distribuição das tarefas, no auxílio aos médicos e acompanhamento dos pacientes. Jair dizia que Maria Helena era seu braço direito, fundamental para o sucesso, por assim dizer, no trabalho que eles executavam.
    Todos sabiam que Maria Helena tinha uma queda por Jair, mas Jair era um homem sério, bem casado, pai de dois filhos e Maria Helena respeitava essa condição, mas não deixava de confidenciar a alguns colegas que era perdidamente apaixonada por Jair.
    Maria Helena era uma mulher muito bonita, respeitadora, constantemente cantada por muitos homens, mas seu verdadeiro amor sempre foi Jair, que infelizmente para ela, muito bem casado.
    O sábado passou e no final do expediente, depois de doze horas ininterruptas, a equipe de Jair fez um balanço do dia: Foram treze salvamentos e dois óbitos.
    - No dia a dia nos entristecemos com as mortes, mas vibramos quando conseguimos salvar uma vida. Salvar uma vida vale muito mais que se entristecer por uma morte, conceituada, evidentemente, Jair. Maria Helena foi ao vestiário do hospital para se trocar. Quando voltou encarou Jair como se fosse um anjo loiro de olhos azuis. Jair balançou e Maria Helena percebeu. Ela sempre foi uma mulher muito bonita e se surpreendeu quando Jair lhe fez uma proposta:
    - Se quiser podemos jantar juntos essa noite!
Maria Helena nem pensou para dizer sim. Não poderia perder aquela oportunidade de ficar alguns momentos com o grande amor de sua vida. Jair achou que não havia nada de mais em convidar Maria Helena para jantar, pois afinal, eram colegas de trabalho e na cabeça dele não havia segundas intenções, aparentemente.
    Os dois foram a um restaurante bem perto do hospital e durante o jantar resolveram não falar sobre trabalho, sobre vida ou morte e Maria Helena se encantou quando Jair disse que ela era muito bonita.
    - Uma coisa era observar Maria Helena no estresse do trabalho e outra era estar diante de seus olhos, sem o barulho das sirenes e dos autofalantes das emergências.
    O jantar transcorreu de maneira muito agradável.
Maria Helena percebeu que Jair estava vidrado e usou de sedução, palavras pausadas com sua voz rouca. Uma taça de vinho foi suficiente para relaxar, ficarem mais a vontade.
    Depois da terceira taça, estavam dançando de rosto colado ao som de músicas românticas cantadas com acompanhamento de um piano. De corpos entrelaçados e com a doçura de um perfume sedutor, não demorou muito para se beijarem e se abraçarem com garras de paixão. Ao final da noite estavam abraçados numa cama de motel.
    O domingo passou numa rotina normal de trabalho.  Jair e Maria Helena trabalharam normalmente nada foi comentado sobre a noite de amor. Na cabeça de Jair tinha sido uma aventura, um momento de prazer entre duas pessoas que se gostavam, mas sem compromisso e tudo teria terminado na manhã seguinte, quando os dois regressaram ao trabalho. Porém, na cabeça de Maria Helena, aquela aventura tornou-se um sonho real, alimentou uma paixão avassaladora, pois os dois se abraçaram, se beijaram e fizeram amor com intensidade de quem se ama. Na noite de domingo Jair saiu assim que encerrou o plantão. 
    Queria voltar logo para casa para reencontrar a esposa e filhos que voltavam de viagem.
    Não se despediu de ninguém, saiu muito depressa e quando Maria Helena percebeu Jair tinha ido embora. Jair chegou em casa e passou o resto da noite com a mulher e os filhos. Estava feliz, pois no dia seguinte seria sua folga no hospital e combinou de passear com a família. Tarde da noite, após as crianças irem dormir, Jair ficou um bom tempo conversando com sua esposa antes de dormir. No meio da noite, acordou com cede e foi beber água. Quando voltou viu seu celular de luz acesa e foi verificar. Jair se assustou. Haviam vinte e duas chamadas perdidas em seu celular e as chamadas foram feitas por Maria Helena.
    Jair apagou as ligações e as mensagens e percebeu a enrascada que se meteu depois da noite com Maria Helena. Quando retornou ao trabalho, chamou Maria Helena para uma conversa e perguntou sobre as ligações.  Maria Helena disse que estava sentindo sua falta e que a noite que tiveram juntos teve um significado muito importante para ela: Estava apaixonada. Jair tentou convencê-la de que o que tiveram foi uma aventura e que tudo havia terminado na manhã seguinte, era um homem casado e não poderia ter um romance com ela. Ponderou ainda que o que tiveram foi uma caso passageiro, uma atração meteórica que culminou numa noite de amor. Maria Helena chorou muito e depois de uma longa conversa prometeu esquecer, prometeu que Jair ficaria guardado em seu coração, mas que respeitaria sua condição de homem casado. Alguns dias se passaram e Jair pensou que tudo estava resolvido.
    Os telefonemas se cessaram e no ambiente de trabalho ficou tudo normal. Maria Helena parecia que tinha se convencido de que o acontecido tinha sido uma aventura que começou numa noite, como bons amigos, numa mesa à luz de velas e terminou na manhã seguinte, numa cama de motel. Perto de completar mais um aniversário Jair estava muito feliz. Sua esposa prometeu que faria um jantar com seu prato preferido e alguns familiares compareceriam em sua casa. Por outro lado, Maria Helena voltou a insistir: Queria uma nova noite de amor como a que tiveram, mas Jair demoveu-a da ideia.
    - Você precisa entender de uma vez por todas que eu sou um homem casado. Amo a minha esposa e os meus filhos e o que aconteceu conosco foi um deslize de minha parte. Nunca dei a você qualquer esperança, tampouco lhe prometi alguma coisa. Vamos esquecer tudo, pois afinal ainda somos amigos, trabalhamos juntos e não podemos deixar nada transparecer em nosso ambiente de trabalho. Contemporizou Jair. O dia do aniversário de Jair chegou e a equipe de trabalho preparou um bolo e cantaram parabéns a você! Jair agradeceu, recebeu os comprimentos de todos e ao final do expediente se despediu emocionando:
    - Minha família está me esperando! Obrigado a todos!
Jair voltou para casa ansioso pela comemoração de seu aniversário com seus familiares.
    Tudo estava perfeito em seu dia e ele estava muito feliz. Antes de servirem o jantar, uma surpresa: Uma visita até certo ponto inesperada.
    Enquanto Jair brindava com sua família e amigos, tocou a campainha e sua esposa foi atender:
          - Maria Helena! Querido! Olha quem chegou! 
Jair ficou com cara de poucos amigos. Não tinha convidado Maria Helena para o jantar, porém, não poderia deixar transparecer qualquer atitude inconveniente e acabou por receber Maria Helena à mesa. Sua esposa achou normal, pois Maria Helena era sua conhecida e sabia que trabalhava com o marido. Um pouco alegre pelas bebidas que havia consumido Jair não sabia o que dizer:
    - Veja querido quem chegou! Sua colega de trabalho!
Para a esposa de Jair a situação, ou seja, a presença de Maria Helena em sua casa era normal, pois afinal, sua esposa sabia que ela era uma boa colega de trabalho de seu marido. Jair ficou constrangido e não sabia o que fazer diante daquela surpresa. Entretanto, procurou agir com a maior naturalidade possível, mas a situação começou a ficar preocupante, pois Maria Helena não lhe desviava os olhos e tudo aquilo poderia ser uma bomba relógio que explodiria a qualquer momento.
    E todos se sentaram à mesa para que fosse servido o jantar. Maria Helena, um tanto quanto deslocada não se intimidou e ficou conversando com Sofia de cinco anos, filha de Jair. Jair e sua esposa ficaram o tempo todo conversando com os convidados. O jantar foi bem sucedido, todos ficaram satisfeitos e o casal começou a se despedir dos convidados, um a um, até que ao final notaram que Maria Helena havia ido embora sem de despedir.
    De certo modo, Jair ficou aliviado, apesar da desconfiança de sua esposa quanto a Maria Helena. E enquanto se despedia do último convidado, ouviu-se um grito desesperador de Samanta, esposa de Jair:
    - Sofia! Sofia!
    Sofia não estava em casa, não estava no quarto, no quintal, em nenhuma dependência da casa. Jair não acreditou e percorreu a casa inteira feito um louco à procura da filha. Ligaram para todos os parentes e amigos e nada de saberem onde estava Sofia. Por fim, houve-se uma interpelação de Samanta:
    - Ela ficou o tempo todo com Maria Helena. Só pode ter sido ela. Jair, desesperado, ligava ininterruptamente para Maria Helena, mas só entrava na caixa postal. Enquanto isso Samanta ligou para a polícia e logo se fez um alerta com o retrato identificado de Maria Helena e da criança. Enquanto isso Jair era interrogado por Samanta e acabou contando para a esposa o envolvimento extraconjugal que havia tido com Maria Helena e que talvez, pela indiferença dele, o sequestro de Sofia poderia ser uma represália.
    Samanta não questionou Jair em nenhum momento sobre seu envolvimento com Maria Helena, pois, de certo, o sequestro da filha deixou-a fora de órbita, o que não fez com que ela digerisse a revelação do marido. A noite inteira se passou e a polícia não tinha nenhuma pista, além de que o envolvimento de Maria Helena no sequestro de Sofia ainda era uma suspeita que precisava ser comprovada. A situação estava insustentável.
    Tentando entender a realidade dos fatos, Jair foi confessar ao delegado do caso o motivo de sua suspeita.  Além do amor louco que Maria Helena tinha por Jair, o maior sonho era que tivessem uma filha, porém, Maria Helena sabia que nunca poderia ser mãe e toda sua loucura poderia ter feito com que tivesse sequestrado Sofia. 
      O dia amanheceu e a polícia começou a investigar as denúncias que recebia, até que um telefonema delatava que uma mulher e uma criança com as características de Maria Helena e Sofia foram vistas no parque central da cidade. Foi num feriado, um dia bonito de sol e o parque estava cheio.
    Pessoas andando de bicicleta, fazendo exercícios, praticando esportes ou tomando sol na beira do lago, enfeitavam o lindo dia.
    Ao fundo do parque existiam algumas cabanas onde as famílias utilizavam para fazer piquenique e quando a polícia chegou, acompanhada de Samanta e Jair, encontraram Sofia, sozinha, brincando com outras meninas que havia conhecido no parque:
    - A tia Helena foi comprar comida! Ela disse que você iria chegar mamãe! Disse a criança inocente. Enquanto seus pais choravam e abraçavam Sofia, a polícia seguia alguns rastros que poderiam leva-los até Maria Helena. Sofia estava bem, disse aos pais que havia dormido no carro e que a tia Helena havia prometido trazê-la no parque para comerem algodão doce. Enquanto isso Maria Helena percebia que estava cercada e fugiu dirigindo seu carro em alta velocidade.
    Sofia voltou com Samanta para casa sã e salva, enquanto Jair foi com a polícia em perseguição a Maria Helena. A polícia estava no encalço e dificilmente Maria Helena iria escapar. Jair tentava a todo o momento manter contato, mas Maria Helena estava perturbada.
       - Não atirem! Não atirem! Ela não fez por mal!
    Jair ficou desesperado. Sabia que Maria Helena estava muito perturbada e aquele estado de loucura poderia ser revertido. Quando finalmente a polícia fechou o carro, Maria Helena fez uma manobra suicida e o carro capotou por várias vezes. Jair saiu em disparada para socorrer Maria Helena, que ficou presa entre os ferros retorcidos do carro destruído.
    - Cuidado! O carro pode explodir! Alertou o policial.
E entre os escombros e um coração partido, Maria Helena, num olhar profundo, lamentou dizendo:
    - Eu não maltratei a nossa filha!

Maria Helena se recuperou depois de quase trinta dias internada. Jair não deixou de cuidá-la um só momento e quando teve alta foi levada para um hospital psiquiátrico onde pagou sua pena. Quanto a Jair, foi perdoado por Samanta e se transferiu de hospital.
ANTONIO AUGGUSTO JOÃO