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19 de julho de 2016

LIVRO - 70 x 7



       ... Da cabeceira da cama pode tirar o teu retrato, não vou querer recordar. Ao passar pela ultima vez no jardim que um dia brotaram rosas coloridas, não deixe rastros sem saídas, não pise fundo nas terras negras, pois vem de lá toda a inspiração para meus versos. Tome muito cuidado com os buracos que você mesma deixou para que eu pudesse cair em suas armadilhas. Ao sair de casa, não derrube o que estiver pela frente, não destrua o que já está destruído e nem bata a porta com a força da sua indignação, pois eu não estou vendo a tua ira. Passando pela sala de estar junto à mesa de jantar, não se esqueça de recolher as rosas sobre a mesa... Elas não vivem mais... Ficaram murchas, [cresceram-se em espinhos], secaram com o tempo, morreram como o amor que um dia eu e você pensamos ter existido.    
       Eu não sou um homem perfeito nem o filho preferido de Deus. Eu tenho paciência e faço todos os dias o exercício do amor. Não mostro a Deus o tamanho dos meus problemas e sim aos meus problemas o tamanho de Deus. Já nos perdoamos mais de setenta vezes sete, mas o remorso quando retorna vem como a força de um furacão e uma palavra mal dita pode incitar novamente à ira de nós dois. Naquela tarde eu estava terminando de escrever um romance.  Pra variar, escrevia sobre dor, tristeza, desilusão... Desamor. É fácil escrever sobre nossas dores. Difícil é encontrar um final feliz, pois a felicidade quando é plena e verdadeira, advém de uma dor. Eu não estava esperando por ninguém é quando o interfone tocou, achei que foi por engano, mas a outra voz, do outro lado da linha, queria muito falar comigo.
        - Eu Preciso falar com você.  Pode me atender?
Eu bem sabia de quem era a voz do outro lado da linha, mas não queria acreditar. Logo pensei em discussões, novas brigas, ofensas... Fazia quase dois anos que eu não a via. Estava bem mais magra, olheiras profundas e cor pálida: Estava acabada. Pensei que de certo vinha conversar sobre algo que ainda tínhamos em comum, mas poderia ter me telefonado. Aí é que vem a retórica, a oportunidade de dizer a coisa certa. Também vem a vingança, oportunidade de regressar, de reverter o prejuízo da última briga, mas sou capaz de amar o mais ferrenho inimigo, pois aprendi com a vida e talvez seja por isso que sofro com isso. De certo que não lhe disse que tinha prazer em revê-la, porém ouvi paciente a sua queixa. Realmente ela estava precisando de ajuda e se me procurou, acreditei que teve várias portas fechadas e aqueles que se diziam amigos e foram contra mim, a deixaram na mão, sozinha na contra mão da vida.
       - Sua situação é muito delicada.
       Fazia tempo que não nos olhávamos nos olhos. Pude ver a mulher que conheci, sem os vícios mundanos, sem o orgulho de quem não conquistou nada e vivia pisando nas pessoas. Como já disse, longe de eu ser o filho preferido de Deus, pois eu também tenho os meus pecados e vai chegar uma hora que vou ter que ser perdoado. A vida inteira tive o coração mole e diante de mim existia uma pessoa pedindo ajuda.  É claro que não neguei, não virei às costas, não bati a porta e nem carreguei comigo as rosas sobre a mesa, pois as rego todas as manhãs esperando dias melhores. Foi difícil a reconstrução de seu problema. Dispus-me a ajudar sem piedade, sem desejar algo em troca... Ajudei porque o meu espírito é assim, fraterno, bondoso e caridoso.Porém, a vida nos prega cada peça, nos decepcionamos tanto com as pessoas, mas o que fica gravado sempre é a nossa honestidade e a nossa consciência. Foi só a situação começar a se organizar, com a minha máxima ajuda, que a discórdia imperou novamente. Os olhos cresceram, os saltos também...E a prepotência votou a reinar e com isso vieram novamente as brigas, as implicâncias e discordâncias, mas eu sou compreensivo e sempre soube a hora de sair de cena e deixar o barco navegar sem que eu esteja no timão. Mas a vida continua e o barco segue... E se por acaso, mais uma vez, ela bater à minha porta pedindo socorro, é claro que vou abrir a porta, pois o exercício do perdão não tem fim e é por isso que sigo a instrução do criador em perdoar setenta vezes sete. Contudo, sei que a vida pode me colocar do outro lado e eu tenha que bater à porta dela. Se isso acontecer não sei se serei bem recebido, da mesma forma que a recebi. Realmente sou sincero em dizer que não tenho certeza.Talvez o meu orgulho me impeça de procura-la, em qualquer circunstância, mesmo se for a última pessoa da face da terra. Se eu tiver que aceitá-la, acredito que minha história jamais irá terminar, pois mesmo que eu desapareça, existirão vários rastros para que outras pessoas possam me encontrar. Mas, se por acaso eu me perder e estiver na beira do abismo, pedindo que alguém me estenda a mão, sei que ela surgirá para me empurrar ribanceira abaixo, pois acredito que seja a única pessoa nesta vida que deseja o “melhor” para mim!
TRECHO DO LIVRO

17 de julho de 2016

LIVRO - EM NOME DO PAI

Ainda menino, espelhava em tudo que meu pai fazia. Também tinha vontade de acordar bem cedo e sair para trabalhar como ele, mas eu tinha que atingir outros objetivos, como por exemplo, estudar.  Com apenas sete anos, muito novo para entender a vida na parte de ser um pai de família, como meu pai dizia que era. Costumava deixar alguns bilhetes debaixo do travesseiro do meu pai, pedindo para ele me acordar às quatro horas da manhã e me levar para a feira. Eu sei que ele lia os bilhetes, mas não tinha coragem de me acordar tão cedo, mesmo nos finais de semana ou nas férias escolares. 
       Num determinado domingo, depois de muitas tentativas, consegui acordar às quatro horas da manhã, no momento em que meu pai estava se preparando para sair. Estava muito frio naquela madrugada. Enquanto meu pai preparava o café, me arrumava, colocando todas as blusas que tinha, pois fazia muito, muito frio. 
       No rádio que funcionava à válvulas e ficava na cozinha, o Zé Bétio disse naquele dia que estava fazendo sete graus e que a temperatura iria cair ainda mais. Pensei em pegar uma blusa do meu irmão para garantir, mas na hora certa, desisti. 
        Nunca fui de tomar café, mas naquela ocasião achei que era uma boa ideia. 
O que você está fazendo acordado a essa hora moleque? 
       - Eu vou com você pai! 
       - Volta pra cama rapaz. Tá muito frio! 
       - Mas eu quero ir com você! 
       - Hoje não. Outro dia eu te levo! 
O frio foi uma boa desculpa e meu pai acabou me convencendo. Será que todas as madrugadas eram geladas como aquela? 
        - O que você está fazendo acordado há essa hora menino? 
       Era minha mãe.  Acabei levando a maior bronca enquanto pela janela via meu pai subindo as escadas em direção à rua. 
       Daquela vez eu quase fui com ele, mas eu não iria desistir. Quem sabe no próximo verão! Pensei. 
       Sempre tive medo de ir mal na escola, tirar notas baixas, pois assim, além de ser repreendido pelos meus pais, ficaria muito difícil fazer minhas reinvidicações. Percebia que com sete anos não tinha direito a nada, e na verdade não tinha mesmo. Meus pais estavam certos: Minha maior preocupação deveria ser os estudos para que no futuro pudesse me especializar em alguma profissão e prosperar. 
       Mas, o meu espelho foi sempre meu pai e queria ser como ele. O tempo passou e continuei bem na escola. Com dez anos, resolvi fazer mais uma tentativa. 
       Meu pai queria que eu fosse jogador de futebol e eu queria ser o meu pai. Até que fui um bom jogador. Jogava bem com os meninos da minha idade, mas não tinha como me inscrever em algum clube, pois exigiam a presença do pai ou da mãe, e meus pais não tinham como me acompanhar. 
       Quando chegou o natal, havia completado onze anos de idade. Na véspera, por volta da hora do almoço, estava jogando futebol na rua com alguns amigos quando estacionou um caminhão na porta de casa. Em meio a muitas buzinas, vi meu pai acenando. 
       Finalmente ele havia conseguido comprar um caminhão de carroceria para poder trabalhar na feira.  Até então ela pagava aluguel para um amigo transportar as mercadorias. 
Ele estava muito contente e todos ficaram também.  
        - Vamos dar uma volta! Chamou! 
Meu pai não sabia a dor de cabeça que estava arrumando, pois tanto eu como meu irmão queríamos guiar o caminhão. 
       - Pai! Agora você pode me levar na feira! Eu posso ficar na carroceria e se estiver frio eu me enrolo na lona! 
Meu pai prometeu que passando o natal ele me levaria na feira, e meu irmão também! 
       As festas de final de ano se passaram. 
       - E viva o verão! 
       Janeiro chegou e comecei a cobra-lo.
      Certa vez ele me chamou por volta das cinco e meia da manhã.  Acordei e escutei-o dizendo: 
       - Vamos moleque! 
O problema foi que meu pai chamava só uma vez. Se conseguisse acordar tudo bem, senão... Assim, muitas vezes ele me chamou, mas não conseguia acordar. Não estava acostumado acordar cedo. Eu estudava no vespertino e acordar cego sempre foi um sacrifício. 
       Às vezes cinseguia acordar e ouvia ele me chamando, mas num piscar de olhos eu dormia de novo. 
      Tentei fazer com que minha mãe me chamasse, mas ela achava que nos éramos muito pequenos para acordar cedo e fazer o trabalho passado, pois trabalhar de feirante exigia muita disposição física. Mas existe um ditado que diz que os sonhos existem para virarem realidade. 
        - Acorda! Acorda! 
        - Humm... 
        - Acorda logo! O pai já vai sair! 
Era meu irmão. Ele conseguiu acordar às cinco da manhã e enquanto meu pai estava no banheiro fazendo a barba, meu irmão veio me acordar. 
          - Anda logo dorminhoco e não faz barulho senão a mãe vai acordar! 
O plano do meu irmão deu certo. Ele acordou no horário e me chamou. Trocamos de roupa rapidinho, não estava fazendo frio – graças a Deus, e corremos para o caminhão que ficava estacionado na porta de casa. 
       Meu pai nem percebeu que subimos na carroceria e nos escondemos no meio dos sacos de batatas e nos enrolamos na lona que as cobriam. Meu pai saiu de casa vinte minutos depois que nos escondemos na carroceria do caminhão. 
       Entrou assoviando as músicas caipiras que ele ouvia no programa do Zé Bétio, ligou o caminhão e partiu rumo à feira. 
         - Onde vai ser a feira hoje? 
         - Na estrada de Santos. Respondeu meu irmão. 
         - Como você sabe? 
         - Não enche o saco! 
       No trajeto eu e meu irmão acabamos pegando no sono, escondidos na carroceria. O caminhão balançava muito e acordamos depois que passou num buraco na estrada de Santos: 
        - Que é isso? 
       - É um carro de polícia, preto e branco! Disse meu irmão. 
       O carro de polícia fez um sinal para meu pai parar. 
         - Será que fomos descobertos? 
         - Cala a boca! Respondeu meu irmão, nervoso! 
Nos não conseguíamos ouvir o que os dois policiais pediram para meu pai. Ele mostrou os documentos, mas no final da conversa ouvimos um dos guardas dizendo que iriam multar, pois os pneus trazeiros estavam carecas. Meu pai tentou argumentar, dizendo que era trabalhador, etc. Mas o policial lavrou a multa e deixou meu pai seguir. 
         - Será que falta muito pra chegar? 
         - Como eu vou saber? Nos nunca viemos nesta feira. O pai quem disse que ficava na estrada de Santos. 
De repente meu pai fez uma curva e entramos num declive muito acentuado e perigoso.  Existia muita neblina no local e meu pai limpava o para brisas com uma flanela, pois o limpador não estava funcionando. Pela carroceria a gente podia ver meu pai no controle do caminhão, só que em determinado momento nos pareceu que o caminhão estava sem freio, pois meu pai estava fazendo as curvas tangenciando sem sucesso. 
       Nos tivemos a certeza que o caminhão estava sem freio quando ouvimos meu pai dizendo um baita palavrão em voz alta. 
          - Vamos pular? 
          - Cala a boca! Meu irmão estava nervoso. 
Meu pai estava procurando uma oportunidade para jogar o caminhão contra o matagal, mas estava sem controle da direção.  
         - Meu Deus! É melhor ele não saber que estamos na carroceria! 
         - Cala a boca! 
Meu irmão ameaçou entrar pela cabine a partir da carroceria, mas eu não deixei. Enquanto isso meu pai tentava de todas as maneiras parar o caminhão. Ainda bem que a estrada estava vazia, sem nenhum veículo nos dois sentidos. 
           - Será que a gente vai cair no mar? 
           - Cala a boca! 
Meu pai usou o freio de mão ao mesmo tempo em que derrapou o caminhão em direção a um matagal. O caminhão entrou mata adentro e foi perdendo a velocidade até parar. Enquanto isso, eu e meu irmão vibrávamos na carroceria. 
         - Ainda bem que ninguém morreu! 
         - Cala a boca! O pai vai ficar muito nervoso quando souber que a gente estava aqui, escondido. 
         - Ainda bem que a ideia foi sua! 
         - Cala a boca! 
E após o caminhão ter parado por completo, meu pai saiu da cabine, subiu na carroceria, desenrolou eu e meu irmão da lona e disse: 
        - Podem descer moleques! Está tudo sob controle! Graças a Deus! 
        - Valeu pai!

TRECHO DO LIVRO

LIVRO - PAI NOSSO

A casa estava toda revirada e bagunçada. Robert sempre foi atrapalhado e o segundo filho viria no momento de vida mais feliz do casal. Daquela vez não foi alarme falso. Sarah sabia que o segundo filho estava pedindo passagem para nascer:
       - Querido! Não precisa colocar tantas coisas na mala. Coloque somente o necessário para o primeiro dia.
       Robert e Sarah viviam numa pequena e pacata cidade no interior dos EUA. Robert sempre foi lavrador e cultivava frutas, verduras, raízes e madeira, que era o meio de sobrevivência da família. Sarah também o ajudava na terra. Se conheceram ainda adolescentes e se casaram no mesmo instante em que nasceu o primeiro filho, Nicholas. Robert saiu todo atrapalhado rumo á maternidade. Nicholas ficaria hospedado na casa de um vizinho enquanto Robert passaria a maior parte do tempo na maternidade com sua esposa Sarah. O Dr. Paul estava no hospital aguardando Sarah chegar para fazer o parto. Sarah iria dar à luz uma menina que seria batizada com o nome de Annie.
       Logo que chegou, Sarah foi conduzida para uma sala de preparos antes do parto. Enquanto isso, Robert ficou na recepção tomando um café atrás do outro. Eram vinte e três horas quando começou o procedimento de parto. Tudo tinha sido feito como o Dr. Paul havia recomendado e toda equipe médica iniciou os trabalhos para o parto. Sarah estava tranquila, sabia que Nicholas seria bem cuidado pelos amigos vizinhos e quanto a Robert, sabia que tomaria toda a garrafa de café da recepção, por tamanha ansiedade.
       Robert andava pra lá e pra cá, ansioso por notícias de Sarah, porém, aos poucos, foi sossegando e até deu uma cochilada na poltrona da recepção:
       - Enfermeira! Chamando enfermeira chefe! Setor C sala 217.
       O auto falante da emergência solicitava a presença da enfermeira para auxílio no parto de Sarah. Alguma coisa estava transcorrendo em desagrado e Robert ficou meio perdido, sem ter noticias de Sarah.
       - Estamos perdendo o pulso! A pressão está muito alta e os batimentos cardíacos estão lentos!
       Esse foi o diagnóstico que a equipe de médicos detectou no decorrer do procedimento. Houve uma complicação no procedimento de parto e a equipe médica teria que tomar uma decisão de tamanha importância e responsabilidade e não tinham muito tempo para decidir.
       - Chamem o marido imediatamente. Ordenou o médico
       Quando Robert tomou pé da situação, ele sorriu. Em situações de tremenda pressão, sustos, tragédias... Pessoas reagem de várias maneiras e Robert sorriu. Mas por dentro, estava desesperado. Não se soube de foi erro médico ou complicações generalizadas do parto, mas os médicos pediram para Robert optar em ficar com o bebê ou com Sarah e ele tinha que decidir rápido senão perderia ambos. Robert continuou sorrindo, dando murros em todas as paredes que via pela frente.
       - Doutor, precisamos ressuscita-la. Disse outro médico.
       A situação estava terrível e a equipe médica acelerou os procedimentos quando aos gritos Robert entrou na sala de emergência:
       - Salvem o bebê! Salvem o bebê!
       Annie nasceu com sérias complicações e ficou na incubadora e depois sobre cuidados médicos por mais de sessenta dias. Robert ficou por um bom tempo perdido. Não tinha forças para cuidar da terra de onde tirava o sustento da família e ainda com a responsabilidade de duas crianças para cuidar. O tempo passou e com muito custo Robert foi se reerguendo. Annie completou cinco anos e Nicholas, sete. O grande problema foi que Robert adquiriu o vício do álcool. Nos momentos de profunda tristeza e agonia, Robert fugia para os fundões de terra para chorar escondido das crianças e levava consigo a bebida alcoólica como companhia. Contudo, a vida de Robert, Nicholas e Annie mudaria radicalmente a partir daquele dia. Robert sumiu, desapareceu. Saberiam mais tarde que desmaiou de tanta bebida e desilusão. Enquanto Robert afogava suas mágoas na bebida, Nicholas e Annie se viravam em casa. Estavam com muitos problemas na escola e viraram crianças rebeldes. Naquele dia as crianças após prepararem o jantar, deixaram algumas lascas de carvão acesas e uma delas caiu no chão de madeira e acabou provocando um incêndio. Antes disso, as crianças foram dormir e Robert ficou perdido na bebida. Os vizinhos socorreram, chamaram a polícia, conseguiram dominar as chamas, mas a cozinha da casa ficou totalmente destruída.
       Com as crianças não aconteceu nada, mas a situação de Robert ficou muito complicada. Robert foi encontrado somente na manhã seguinte pela polícia, ainda embriagado e no meio de uma plantação de eucaliptos. Assim, quando soube do ocorrido ficou desesperado e somente se tranquilizou quando encontrou e abraçou Nicholas e Annie.
       Enfim, por uma decisão do juiz, Robert se livrou da prisão, mas o juiz determinou a perda da guarda das crianças, o que para Robert significaria o fim. As crianças já eram rebeldes e revoltadas pela perda da mãe e pelo estado do pai, não se davam bem com ninguém, principalmente na escola, mas, de todo modo, amavam o pai, amavam Robert sob todas as formas.
       Nicholas foi encaminhado para o orfanato ao leste do estado, numa distância de quatrocentos quilômetros de seu pai e Annie foi para o oeste, a duzentos quilômetros de distância. No início Robert foi impedido de visitar os filhos, daí se perdeu ainda mais na bebida, no álcool. Na procura de ajuda conheceu Marie. Marie foi a assistente social que ajudou Robert no processo de recuperação da guarda dos filhos. Seria uma batalha árdua. As leis no estado onde Robert e as crianças viviam eram muito rigorosas. Foi daí que Marie ajudou Robert e assim contrataram um advogado para iniciarem o processo de recuperação da guarda. Marie também ajudou Robert a se livrar do álcool.
       - Foi um anjo que apareceu na minha vida.
       Foi sempre assim que Robert terminava seus depoimentos nas sessões do Grupo dos Alcoólatras Anônimos, se referindo a Marie.
       Robert arrendou seu rancho, pois não tinha forças para o trabalho pesado. Ficou com sessenta por cento como administrador e arrendou quarenta por cento para Richard, um amigo de infância que reapareceu após saber da triste realidade da vida de Robert. Assim, Robert, Marie e o Dr. Simpson poderiam trabalhar no processo da recuperação da guarda das crianças.
       Quando uma carta chegou pelos correios na casa de Robert, não poderia proporcionar alegria maior. O Juiz havia concedido a primeira visita de Robert aos filhos, depois de quase um ano, desde que foram para o orfanato. Foi a primeira vitória do Dr. Simpson no processo, com a ajuda da Assistente Social Marie.
       A visita aconteceria num domingo, três dias depois do recebimento da carta e Robert contava as horas e os minutos para chegar o momento de reencontrar os filhos.
       - Como será que eles vão me receber? Questionava Robert
       - Tenha calma, tudo vai dar certo! Incentivava Marie.
       O dia da visita chegou e Robert primeiro foi visitar Nicholas. Marie o acompanhou. Quando chegaram tiveram uma sensação horrível, pois o orfanato tinha aspecto de prisão, um isolamento. Robert sentou-se numa sala enquanto foram buscar Nicholas. Nicholas demorou a chegar. Parecia que estavam convencendo-o a ver o próprio pai. Pela porta aberta, que dava de frente para um corredor, Robert viu Nicholas se aproximar. Nicholas chegou caminhando com dificuldade e devagar. Tinha dificuldades em andar e mancava da perna direita. Robert não se conteve e saiu feito louco para abraçar o filho.        
       - Nike, meu filho!
Nicholas recebeu o pai friamente. Enquanto o pai chorava de saudade, Nicholas apenas o olhava com expressão fechada, de revolta, tristeza e solidão. Enquanto Robert ficou o tempo todo abraçado ao filho, Marie andou pelo orfanato e conversou muito com a diretora.
       - Pai, eu quero ir com você. Não quero mais apanhar.
       Nicholas estava com quase dez anos e por se rebelar, sofria muitos castigos no orfanato. Robert identificou marcas e cicatrizes no corpo do filho e numa atitude intempestiva, tentou "raptar" o próprio filho daquele lugar sombrio, obscuro, como se fosse uma prisão de segurança máxima.
       E na despedida, Nicholas chorou. Não queria largar do braço do pai que também desmontou em emoção.
       - Meu filho, tenho que ir embora, mas não vou demorar em vir te buscar.
       Robert foi embora arrasado. Pensou em cometer uma loucura tirando o filho do orfanato à força, mas só agravaria a situação. Ainda bem que Marie estava com ele. Enquanto Robert ficou com a emoção e tristeza aflorada, Marie, ponderada, colheu informações importantes que seriam fundamentais para o processo de recuperação da guarda dos filhos de Robert, e que o Dr. Simpson usaria da melhor forma possível.
       Marie tomou a direção do carro e iniciaram a viagem para o orfanato onde estava Annie. Não seria possível visita-la no mesmo dia e assim resolveram pernoitar num hotel de beira de estrada.
       - Acalme-se Robert. Tenho informações importantes que vão ajudar o Dr. Simpson a resolver de uma vez essa situação. Disse Marie a Robert, que logo pegou no sono.
       No dia seguinte Robert e Marie seguiram rumo à visita a Annie. Robert estava muito preocupado, pensando receber Annie num mesmo cenário sombrio ao de Nicholas. Quando chegaram, diferentemente do que haviam visto no orfanato onde estava Nicholas, viram um cenário menos carregado. E então foram surpreendidos com Annie que veio correndo ao encontro do pai:
       - Papai! Papai! Você veio me buscar?
Robert não respondeu... abraçou e beijou Annie, enquanto Marie foi conhecer melhor o orfanato e conversar com o diretor.
       - Papai, quem é ela? Ela é sua namorada? Ela vai ser minha mãe?  
       Robert disse a Annie que Marie era uma assistente social do estado onde vivia e que junto com o advogado Dr. Simpson, estavam ajudando- o retira-lá daquele lugar e voltar para casa.
       - Cadê meu irmão?
Robert desabou com os questionamentos de Annie e foi Marie que consolou a menina que havia recentemente completado oito anos de idade.
       - Seu pai vai embora agora, mas logo voltará para busca-la.
Annie chorou muito na despedida e aos gritos Robert disse que em breve viria busca -la e a levaria de volta para casa. Durante a viagem de volta, Marie ligou para o Dr. Simpson e lhe adiantou o que havia se passado nas visitas e marcaram uma reunião para assim que chegassem de viagem.
       No dia seguinte Robert e Marie se dirigiram ao escritório do Dr. Simpson e Marie fez uma explanação de como estava a situação das crianças no orfanato e quais as medidas que deveriam tomar a partir de então:
       - A situação do Nicholas é desesperadora. O orfanato não obedece as regras determinadas pelo governo. Apurei que abrigam menores infratores no mesmo ambiente dos considerados órfãos, o que é ilegal perante as leis do nosso estado e ainda agridem os meninos rebeldes. Nicholas se envolveu em várias brigas que causou um ferimento na perna direita que o faz mancar. Mas as brigas não foram porque Nicholas tenha tido comportamentos em desacordo e sim porque teve que se defender dos delinquentes. A diretora do orfanato me confidenciou esses detalhes e está disposta a depor a nosso favor se tiver uma proteção da justiça ou uma delação premiada.
       - A situação de Annie é mais tranquila. O orfanato onde Annie se encontra obedece as regras governamentais. As meninas até estudam, são assistidas por psicólogos e fazem atividades físicas e sociais. A diretora prometeu que pode nos ajudar na recuperação da guarda com um relatório de bons comportamentos de Annie.
       Com as informações trazidas por Marie, o Dr. Simpson iniciou o processo para protocolar junto ao juízo da comarca para solicitar a recuperação da guarda das crianças.
       Na primeira decisão o juiz deu a sentença como favorável a Robert, mas fez três exigências que deveriam ser comprovadas em noventa dias. A primeira exigência foi que Robert tinha que provar que estava totalmente curado do vício do álcool. A segunda, que tivesse um trabalho fixo que pudesse oferecer condições de sustentar seus filhos. A terceira, a que mais constrangeu Robert, ele deveria Sr um homem casado em até noventa dias antes da recuperação da aguarda das crianças. 
       A primeira exigência do juiz foi totalmente comprovada através dos relatórios dos Alcoólatras Anônimos e os exames médicos recentes que Robert juntou ao processo, além dos depoimentos dos vizinhos.
       A segunda exigência também foi comprovada. Robert tinha arrendado o rancho em quarenta por cento ao amigo Richard. Com isso o rancho prosperou novamente e as terras voltaram a ser produtivas, garantindo o sustento de todos. Robert havia se esquecido da terceira exigência quando Marie o convidou para um jantar em sua casa. Há muito tempo Marie gostava de Robert. Conheceu sua história, a forma em que perdeu sua esposa, conheceu a agonia de seus filhos e a luta de um pai para recuperar sua dignidade. Com todas essas tribulações, Robert não conseguiu enxergar a mulher maravilhosa que estava em sua volta, em sua companhia, e que foi fundamental para que conseguisse recuperar a guarda dos filhos, prestes a acontecer.
       Aquela noite foi maravilhosa para Robert e Marie. Parecia até que ambos estavam aproveitando aquela chance, aquela conveniência para poder juntar uma prova no processo para ter os filhos de Robert de volta. Marie prometeu a Robert dois compromissos: Primeiro ajudá-lo definitivamente a recuperar seus filhos e segundo, provar seu amor a Robert.
       E assim foi feito. Robert e Marie se casaram e após cem dias Nicholas e Annie estavam em casa novamente. Robert se sentia completo novamente: Tinha novamente uma família.
       Annie e Marie desde o início se deram muito bem. Nicholas a olhava com desconfiança. Não a tratava mal, porém, não aceitava o carinho da mesma forma que Annie aceitava. Nicholas gostava de ficar na terra, junto com Richard e Robert. Se sentia bem trabalhando. No início fez um trabalho de fisioterapia com o médico da cidade e não mancava mais como na época do orfanato. Quando todos estavam sentados à mesa para fazer as refeições, Nicholas ignorava Marie:
       - Esse lugar é da minha mãe. Ela não é a minha mãe.
       Os negócios prosperaram e Robert estava numa situação financeira muito privilegiada, tanto que Annie e Nicholas foram estudar numa excelente escola numa cidade vizinha. Somente aos finais de semana e nas férias os filhos estavam com Robert que não ficava triste com aquela situação:
       - Estou investindo no futuro dos meus filhos.
Quando as férias de verão chegaram no ano de mil novecentos e sessenta e sete, Nicolas estava com treze anos e Annie onze. A família estava muito feliz. Robert estava ensinando Nicholas andar a cavalo e Marie ensinando Annie a fazer bolos e tortas. Nicholas era vidrado em colher frutos e numa tarde estava em cima de uma árvore quando ocorreu um acidente:
       Nicholas se desequilibrou e caiu de cima da árvore. Antes de chegar ao solo tentou se proteger segurando em um galho, mas o galho quebrou-se e por infelicidade, ao cair, perfurou seu abdômen. Nicholas sangrou muito e foi imediatamente levado ao hospital. Precisou fazer uma cirurgia de emergência e precisou de doadores de sangue do tipo B positivo. Richard se dispôs a doar, mas seu sangue não foi compatível. Robert e Annie também. Robert comentou, decepcionado que Sarah era quem tinha o tipo de sangue adequado.
       - Eu vou doar. Disse Marie.
Marie tinha o sangue compatível com o de Nicholas, além de alguns vizinhos de Robert. O volume de sangue necessário foi doado e a operação foi um sucesso. Depois de cinco dias, Nicholas estava em casa novamente em repouso pela cirurgia. 
       E para comemorar, Annie fez um bolo de morango que Nicholas adorava:
       - Para quem será o primeiro pedaço!
Nicholas cortou, colocou o pedaço de bolo num prato e o direcionou a Marie:
       - O primeiro pedaço é pra você! Obrigado, mãe!

Com o sucesso produtivo do rancho, Robert e o amigo Richard compraram uma fazenda bem maior e expandiram a produção justamente quando Nicholas se formou em engenheiro agrônomo. Annie estava no último ano da faculdade de gastronomia quando Marie deu à luz aos gêmeos Sarah e Robert Junior. E assim, Robert, Marie e todos viveram felizes para sempre!
SINOPSE DO LIVRO