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24 de janeiro de 2016

LIVRO - RUA CINCO DE JULHO - PARTE II - BURACO NA ALMA NO CAMPO DE SONHOS

O número 316 apareceu no painel da recepção. Eu seria o próximo a ser atendido, a fazer os exames. Lembrei-me de quando minha mãe me levava aos Sanatorinhos na Rua dos Patriotas. Eu era muito pequeno, não entendia nada, não entendia o porquê de estar ali, naquela fila, esperando um homem vestido com um avental branco me examinar. Minha única preocupação era segurar a minha bola de capotão que não largava nem para dormir. Debaixo da minha cama, lembro-me muito bem que existia um penico e minha bola de capotão, além do meu bamba branco, para jogar futebol e fazer educação física. Certo dia, escondido atrás da porta, ouvi uma conversa da minha mãe com o meu pai, onde minha mãe dizia que precisaria me levar num outro médico, pois no Sanatorinhos não tinham recursos e eu tinha que cuidar de uma “doença” que eu tinha no coração. Ouvi minha mãe dizendo que eu tinha “sopro no coração”. Depois de alguns minutos refletindo e tentando entender aquela conversa dos meus pais, passei pela sala de estar e debaixo da mesa de jantar peguei minha bola de capotão e disse à minha mãe:
          - Mãe, posso ir jogar futebol na rua?
          - Pode sim meu filho!
          - Se eu cair, me machucar, você passa mercúrio e “sopra”?
          - “Sopro” sim meu filho, “sopro”... Pode ir!
          Da poltrona da recepção, via alguns meninos jogando futebol na rua lateral ao laboratório. Chutavam uma bola de capotão velha, com os gomos descosturados, jogavam sem camisas, como fazíamos na Rua Cinco de Julho.  O painel ainda exibia o número 316 quando ouvi uma voz grave chamar o número 317, eu. O painel havia quebrado e chegara a minha vez de fazer os exames. As memórias da minha infância estão sempre vivas, às vezes, me sinto como um menino, mesmo sem ter mais a minha bola de capotão debaixo da cama, do tênis bamba não existir mais e da minha mãe  não estar mais aqui para “soprar” o meu coração!  Talvez o meu melhor remédio, na minha vida inteira, foi a liberdade de viver colado junto a minha bola de capotão, de brincar na Rua Cinco de Julho, de sonhar em marcar um gol decisivo numa partida de futebol.
Trecho do Livro


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